Arquivo de outubro \20\UTC 2010

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out
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“Dá um abraço?”

Por  Yumi Miyake

(crítica cultural proposta no curso de Crítica Cultural da Escola São Paulo, com o jornalista do Estado Daniel Piza)

-Se você não viu o documentário e ainda pretende vê-lo, não leia! Esse post não é free de spoilers-

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É segurando essa placa que o consultor de RH Ary Itnem Whitacker sai em plena avenida Paulista oferecendo nada mais que abraços gratuitos, nas primeiras cenas do longa.

A ideia do personagem do documentário “Abraço Corporativo”, Ary, é divulgar o que ele chama de Teoria do Abraço, para combater a “inércia do afastamento” problema atual que as empresas sofrem com seus funcionários e tem como maior causa as novas tecnologias, que torna as pessoas cada vez mais individualistas. Essa teoria foi criada pela entidade “Confraria Britânica do Abraço Corporativo”, da qual Ary é o maior representante no Brasil. Com esse assunto, Ary constantemente cedeu entrevistas para a televisão, impresso e veículos na internet e deu palestras sendo sempre aplaudido.

Nenhum problema em buscar uma aproximação de seus funcionários na cidade caótica, populosa, porém individualista em que vivemos. Mas daí a ceder tanto espaço para esse assunto é o problema questionado. A busca pelo “furo” de reportagem fez com que veículos de informação consagrados cedessem certas informações sem a apuração bem feita. Se, desde que ingressamos à faculdade ou ao mercado de trabalho jornalístico somos constantemente cobrados no que diz respeito à apuração bem feita, jornais, revistas, canais de TV e rádio como Bandeirantes e CBN escorregaram feio: logo se descobre que Ary Itnem não é um consultor de RH, mas o ator e dublador Leonardo Camillo. O ator dá vida ao personagem Ary, que é elaborado, apesar de suas falhas propositais, e passou um bom tempo treinando e incorporando a ideia de ser um… picareta. Quem assistira o desenho animado “Cavaleiros do Zodíaco” quando criança ou assiste a filmes com atuação do ator Nicolas Cage certamente achará a voz de Ary familiar. Essa é uma grande sacada do jornalista e cineasta Ricardo Kauffman: dubladores nos são sempre familiares, porém nunca conhecemos sua aparência. A interpretação de Camillo é convincente, pois nos sentimos atraídos pela sua voz e pelo seu dom de persuasão.

A partir do momento em que o espectador descobre a picaretagem, a trajetória de Ary vai sendo intercalada com depoimentos de jornalistas, professores e estudiosos refletindo sobre o assunto. A maioria dos entrevistados apontou problemas na mídia como espaço público, onde os assuntos são jogados mas não são discutidos, debatidos. Ter esses profissionais no documentário faz com que o documentário de fato se torne um documentário, pois antes a história que girava em torno de Ary era, em parte, fictícia. Os depoimentos dão mais credibilidade ao documentário e à crítica que está sendo construída no filme.

Ary deixava lacunas que certamente chamariam a atenção dos jornalistas, até aos mais desavisados. Por que esse tipo de falha não foi percebida pelos jornalistas? Essa é a grande questão proposta pelo filme.

Foram 5 anos de trabalho da equipe de Ricardo Kauffman para concretizar a obra. O documentário foi exibido pela primeira vez na 33ª mostra Internacional de Cinema de São Paulo, entretanto, como um bom artifício para os dias de hoje, um vídeo em que Ary aparece oferecendo abraços na Paulista já estava sendo divulgado na internet, alcançando a marca de 650 mil views antes da estreia do longa-metragem em circuito comercial (vulgo seções no Cine Belas Artes). Nesse documentário o que vale mais é a ideia em sí e como instiga dúvidas e questionamentos para quem o assiste, pois Ricardo Kauffman não se utiliza de técnicas avançadas de filmagem ou montagem, e nada de muitos recursos sonoros e visuais. A câmera utilizada para a captação das imagens é simples, produzindo imagens muitas vezes até precárias, portanto não espere um documentário super produzido, mas sim bem pensado.

“Abraço Corporativo” levanta 2 questionamentos importantes: como alguém desconhecido, que se diz alguma coisa, consegue conquistar espaço na mídia? E por que a mídia acaba dando espaço a essas pessoas? “Inércia” é a palavra certa. Talvez essa mesma inércia que esteja tomando conta de alguns jornalistas nos últimos tempos. Se a rapidez em divulgar uma notícia se torna mais importante que a notícia em si, o que estariam então noticiando? O que o público quer ver? Hoje o jornalista procura entender todos os lados de um fato, mas não se envolve com ele. Se um jornal de credibilidade deu a notícia, o seu jornal tem que dar também. E se ele deu, é porque a notícia é confiável. Tem certeza? O filme de Kauffman, com cerca de 70 minutos, propõe questionamentos e também nos deixa livres para questionar o próprio fazer jornalístico, ainda em constante mutação, tanto para quem está nesse meio quanto para quem consome a informação.

http://abracocorporativo.com.br/blog/