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mar
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A história sob o olhar de Tarantino


Por Yumi Miyake

Quentin Tarantino é um cineasta americano nascido em 1963 no Tennessee, que tem como marca registrada a violência estilizada, humor negro, roteiros não lineares e diálogos afiados. Conhecido pelo trabalho em Cães de Aluguel e os volumes de Kill Bill, Tarantino chegou em 2009 com o filme: “Inglourious Basterds” (Bastardos Inglórios).

Tarantino e Pitt

Cheio de referências cinematográficas, inclusive no título (Tarantino adquiriu os direitos de refilmagem de Quel Madedetto Treno Blindado, de Castellari, cujo nome nos Estados Unidos foi lançado como Bastardos Inglórios), o filme é ambientado entre 1941 e 1944, na França ocupada pelos nazistas.

A obra, inicialmente pensada por Tarantino como um seriado e  transformada em filme de duas horas e meia, é uma releitura do  Spaghetti Western – westerns produzidos por diretores italianos –  dividida em cinco capítulos, onde as histórias das personagens em  algum momento se entrelaçam.

A trama começa com oficiais nazistas à procura de judeus em uma  fazenda no interior da França. O diálogo é longo, como se nos  preparasse para ficar sem fôlego até o final do filme.  Hans Landa,  vivido pelo ator Cristoph Waltz é o temeroso “Caçador de Judeus” que  impressiona por sua atuação e faz jus ao apelido, mandando metralhar a família escondida na fazenda. A violência é extrema. Só a menina Shoshanna consegue fugir e vai para Paris, onde, mais tarde, se torna proprietária de um cinema.

Em outro capítulo, é mostrada a ação de oito soldados judeus americanos, recrutados por Aldo Raine (com Brad Pitt no papel – repare no sotaque) cujo principal objetivo é matar nazistas, sem dó nem piedade, assim como fizeram os mesmos com os judeus. Se as cenas anteriores já eram violentas, os soldados, bastardos, conseguem “brincar” com a violência e rir dela, como se fosse divertido bater em alguém (ainda que esse “alguém” seja um sargento nazista) com um taco de beisebol, até morrer.

O desejo de vingança é o que Shoshanna e Aldo têm em comum. Hitler é o principal alvo, aliás, uma das únicas figuras verídicas que contracenam com personagens fictícios no filme. O cinema de Shoshanna é o local em que todos os nazistas, inclusive Hitler, estarão para uma estreia de um filme. O plano é exterminar todos lá dentro.

A vingança é o fio condutor da trama, o sentimento que move as ações das personagens. A vingança sempre esteve presente em diversas culturas e interligada ao sentimento de justiça.  Se antigamente a vingança era saciada explicitamente, hoje nossas ações são moldadas e reprimidas pela sociedade. Nos deparamos com agressões todos os dias, mas não necessariamente nos vingamos pagando na mesma moeda. Saciamos, então, nosso desejo de vingança através de filmes como Bastardos Inglórios, canalizamos o nosso sentimento no filme, no que gostaríamos de fazer, porém não podemos, e isso explicaria as gargalhadas e torcida dos expectadores nas cenas de violência.

Quanto à violência, até que se comparado a outros filmes de Tarantino com sangue escorrendo pelas poltronas do cinema, esse em especial deixa os momentos violentos para determinadas partes do filme, a violência não tem o papel principal dessa vez. A violência do filme chega junto com o humor, talvez até como uma forma do espectador digeri-la com mais facilidade.

Tarantino é daqueles que consegue misturar história, linguagens e épocas e nada fica confuso, ele tem o poder de transformar suas referências em algo original, com as características próprias. Ele é o tipo de cineasta “ame ou odeie”, constantemente criticado por explorar a extrema violência nos seus filmes. Mas Bastardos tem um diferencial, que é o fio condutor chamado vingança que acaba cativando o público.

Se você espera um filme fiel a história, é melhor assisti-lo de mente aberta. “Não é um filme histórico” disse Tarantino em uma entrevista em Los Angeles. Trata-se do olhar de Tarantino reescrevendo a história, e se vingando, por nós.

Apesar de indicado ao Oscar em 8 categorias, entre elas a de melhor filme e melhor diretor, Bastardos levou a estatueta que era esperada: a de melhor ator coadjuvante, pela atuação de Cristoph Waltz – que já havia sido premiado no Globo de Ouro e no Festival de Cannes.

Hans Landa, vivido por Christoph Waltz

Confira o trailer:


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